A teoria da recapitulação da expiação é uma visão da teologia cristã relacionada ao significado e ao efeito da morte de Jesus Cristo. Embora algumas vezes esta visão não esteja presente nos resumos das teorias da expiação, as obras mais abrangentes sobre a história da doutrina da expiação normalmente incluem uma seção sobre a visão da "recapitulação" da expiação, que foi formulada pela primeira vez de forma clara por Irineu de Lyon. Um dos principais textos do Novo Testamento em que essa visão se baseia afirma: "[Deus propusera si mesmo] tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra..." (Efésios 1:10). A palavra grega para 'congregar' (ἀνακεφαλαιώσασθαι, anakephalaiosasthai) foi literalmente traduzida como 'recapitular' em latim. Na visão da recapitulação, Cristo é visto como o segundo Adão, que tem sucesso onde Adão falhou. Cristo desfaz o mal que Adão fez e, pela sua união com a humanidade, conduz a humanidade à vida eterna (incluindo a perfeição moral).

Por meio da desobediência do homem, o processo de evolução da raça humana se desviou, e o curso desse desvio não pôde ser interrompido nem revertido por nenhum meio humano. Mas em Jesus Cristo, todo o curso da evolução humana foi perfeitamente realizado e concretizado em obediência ao propósito de Deus.

História Como destacado acima, Irineu é considerado o primeiro a expressar de forma clara uma visão de recapitulação da expiação, muito embora tenha sido antecipado por Justino Mártir, a quem Irineu cita em Contra Heresias 4.6.2:

Em seu livro contra Marcião, Justino diz com propriedade: "Eu não teria acreditado no próprio Senhor se Ele tivesse anunciado outro senão Aquele que é nosso Criador, Construtor e Provedor. Mas, porque o Filho unigênito veio a nós do único Deus, que criou este mundo e nos formou, e contém e administra todas as coisas, 'congregando em Si mesmo a sua própria criação', minha fé nEle é inabalável e meu amor ao Pai, inabalável, tendo Deus nos concedido ambos."

Seguem-se duas citações representativas de Irineu:

[Cristo] foi nestes últimos dias, segundo o tempo determinado pelo Pai, unido à Sua própria obra, na medida em que se tornou homem sujeito ao sofrimento... Ele recomeçou1 a longa linhagem dos seres humanos e nos forneceu, de maneira breve e abrangente, a salvação; de modo que o que havíamos perdido em Adão — ou seja, ser segundo a imagem e semelhança de Deus — pudéssemos recuperar em Cristo Jesus. 1 Assim o siríaco. O latim tem, "in seipso recapitulavit", "Ele resumiu em Si mesmo".

Ele, portanto, em Sua obra de recapitulação, congregou todas as coisas, tanto guerreando contra o nosso inimigo, quanto esmagando aquele que no princípio nos levou cativos em Adão... o inimigo não teria sido completamente vencido, a menos que tivesse sido um homem [nascido] de mulher que o tivesse conquistado. ... E, portanto, o Senhor professa ser o Filho do homem, contendo em Si mesmo aquele homem original do qual a mulher foi formada, para que, assim como a nossa espécie desceu à morte por meio de um homem vencido, assim também possamos ascender à vida novamente por meio de um vitorioso; e assim como por meio de um homem a morte recebeu a palma [da vitória] contra nós, assim também por meio de um homem possamos receber a palma contra a morte.

Para Irineu, o objetivo final da obra de solidariedade de Cristo com a humanidade é torná-la divina. A respeito de Jesus, ele afirma: "Ele se tornou o que nós somos, para que pudesse nos levar a ser até mesmo o que Ele é". Essa ideia foi muito influente no cristianismo oriental, particularmente na Igreja Ortodoxa, tendo sido adotada por muitos outros Pais da Igreja, como Atanásio, Gregório de Nazianzo, Agostinho e Máximo, o Confessor. Esse desenvolvimento da teologia ortodoxa partindo da visão de recapitulação da expiação, é chamado de teose ("divinização"). Uma expressão mais contemporânea, ligeiramente diferente, da visão da recapitulação, pode ser vista na leitura que D. E. H. Whiteley faz da teologia do apóstolo Paulo. Whiteley cita favoravelmente a noção de Irineu de que Cristo 'se tornou o que nós somos, para que Ele pudesse nos levar a ser até mesmo o que Ele é', embora ele nunca descreva a visão de Paulo sobre a expiação como uma recapitulação; em vez disso, ele usa a palavra 'participação':

...se é que se pode dizer que São Paulo defende uma teoria do "modus operandi" [da expiação], esta é melhor descrita como a da salvação pela participação: Cristo partilhou toda a nossa experiência, com exceção apenas do pecado, incluindo a morte, para que nós, em virtude da nossa solidariedade com ele, pudéssemos partilhar da sua vida.

Referências

Notas

Citações