Viva Maria é um programa de rádio brasileiro criado em 14 de setembro de 1981 pela jornalista Mara Régia Di Perna. Veiculado originalmente pela Rádio Nacional de Brasília, é considerado pioneiro no radiojornalismo brasileiro ao abordar a defesa dos direitos das mulheres e questões de gênero em rede nacional.
História O programa estreou no contexto de abertura política ao final da ditadura militar brasileira. O nome foi inspirado na canção "Maria, Maria", de Milton Nascimento e Fernando Brant, com o objetivo de criar um espaço de representatividade feminina no rádio. A ideia surgiu após a autora assistir a uma apresentação do Grupo Corpo baseada na canção e perceber a ausência da voz feminina no jornalismo radiofônico da época. Consolidou-se, desde sua estréia, como uma ferramenta de empoderamento feminino, promoção da cidadania e enfrentamento da violência contra as mulheres, especialmente em regiões periféricas e populações pouco atendidas pelos grandes meios de comunicação. Inicialmente, o Viva Maria era transmitido como um programa de variedades com duas horas de duração, de segunda a sábado. Ao longo de sua trajetória, o formato foi adaptado para programetes de 5 a 10 minutos, veiculados de segunda a sexta-feira. Desde a década de 2010, também passou a ser veiculado em formato podcast. Em 1990, durante o governo Fernando Collor, o Viva Maria foi retirado da grade da Radiobrás sob a justificativa de que as principais pautas do movimento feminista já haviam sido contempladas na Constituição brasileira de 1988. Durante o período em que esteve fora do ar, o formato foi mantido de maneira independente pela apresentadora na Rádio Capital de Brasília e em edições públicas realizadas em praças do Distrito Federal. A mobilização de ouvintes e organizações feministas pelo seu retorno motivou a criação do Dia Latino-Americano e Caribenho da Imagem da Mulher nos Meios de Comunicação, instituído em 14 de setembro de 1990 durante o V Encontro Feminista Latino-Americano e do Caribe, uma homenagem explícita à data de estreia do programa. O Viva Maria retornou posteriormente à grade da Rádio Nacional.
Formato e distribuição O programa é produzido em Brasília e distribuído através da Empresa Brasil de Comunicação para milhares de emissoras comunitárias e comerciais em todo o Brasil, atingindo especialmente populações rurais e ribeirinhas da Amazônia.
Campanhas e mobilização social O programa caracteriza-se pelo jornalismo engajado, tendo atuado como canal de mobilização popular em momentos decisivos da legislação brasileira:
Constituinte de 1988: divulgou e coletou assinaturas para emendas populares que garantiram direitos na Constituição de 1988. Direitos trabalhistas: apoiou a campanha pela ampliação da licença-maternidade para 120 dias e pela licença-paternidade. Violência contra a mulher: colaborou para a criação da primeira Delegacia da Mulher do DF em 1985. Saúde pública: realizou campanhas contra o escalpelamento na Amazônia, com arrecadação de cabelos e equipamentos para perucas, e produziu radionovelas educativas sobre saúde reprodutiva e parteiras tradicionais.
Repercussão jornalística O estilo afetivo do programa foi abordado em perfis como o publicado pela Revista Imprensa em junho de 2011. Na entrevista, Mara Régia destacou o desejo de criar um espaço de escuta para mulheres comuns, frequentemente excluídas dos meios de comunicação e do poder. Em 2024, o jornalista Leandro Demori apresentou Mara Régia como “a voz das mulheres, em especial das mulheres da floresta”. A jornalista e escritora Eliane Brum narrou um episódio ocorrido nos anos 1990, quando percorria a Transamazônica coletando histórias. Ao admitir a uma moradora local que não conhecia Mara Régia, foi imediatamente recriminada pela mulher, chocada com a ignorância da repórter, e corrigida pelo marido dela: “Mara Régia é da rádia. Nunca ouviu, não? A gente aqui ouve ela tudinho”. Mara Régia foi entrevistada por inúmeros outros veículos de comunicação, entre eles o Programa do Jô
Reconhecimentos para o programa e sua criadora 2005: Indicação coletiva ao Prêmio Nobel da Paz via projeto 1000 Women for Peace. 2016: Recebeu a Ordem do Mérito Cultural no grau de Cavaleira. 2021: Premiada com o Troféu Audálio Dantas.
Bibliografia BETTI, Juliana Cristina Gobbi. Informação crítico-emancipatória com perspectiva de gênero: os direitos das mulheres em programas radiofônicos femininos. Tese (Doutorado em Jornalismo) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2021. A autora realiza uma análise aprofundada do Viva Maria como estudo de caso para discutir práticas de jornalismo emancipatório. VELOSO, Ana Maria da Conceição. Gênero, poder e resistência: as mulheres nas indústrias culturais em 11 países. Tese (Doutorado em Comunicação) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2013. A obra examina a presença das mulheres em diferentes segmentos da indústria cultural e inclui discussão sobre programas radiofônicos brasileiros de perfil feminista, entre eles o Viva Maria. SILVA, Ellis Regina Araújo da. Gênero e feminismo no rádio: o programa Viva Maria da Rádio Nacional. Trabalho apresentado no X Encontro Nacional de História da Mídia (ALCAR), 2015. O estudo discute o Viva Maria como experiência pioneira na articulação entre comunicação pública, direitos das mulheres e feminismo no rádio brasileiro. PAIXÃO, Cláudio Chaves. Viva Maria: o rádio a serviço da igualdade de gênero. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Jornalismo) – Universidade Federal do Tocantins, Palmas, 2013. Apresenta uma análise descritiva do programa e de seu papel na promoção dos direitos das mulheres.
Referências