O kimchi, prato tradicional da Coreia feito a partir de vegetais fermentados, está no centro de um estudo que investigou a ação de bactérias do alimento no organismo. A pesquisa indica que um desses microrganismos pode se ligar a nanoplásticos no intestino e contribuir para a eliminação dessas partículas pelas fezes.A pesquisa, conduzida pelo Instituto Mundial do Kimchi, na Coreia do Sul, e publicada na revista Bioresource Technology, analisou uma cepa específica de bactéria do ácido lático, a Leuconostoc mesenteroides CBA3656.Em testes de laboratório, o microrganismo mostrou alta capacidade de se ligar a nanopartículas de poliestireno, um tipo de plástico. Em condições que simulam o intestino humano, essa capacidade se manteve. Leia também ReceitasKimchi de repolho: faça já a tendência máxima da gastronomia em 2026 GastronomiaKimchi de ora-pro-nóbis transforma planta em fermentado saboroso GastronomiaClássico! Aprenda a fazer kimchi caseiro tradicional e cheio de sabor SaúdeKimchi, tradicional prato coreano, pode fortalecer o sistema imune Nos experimentos com camundongos, os animais que receberam a bactéria eliminaram mais do que o dobro de nanoplásticos nas fezes em comparação com o grupo que não recebeu o probiótico. O resultado sugere que o microrganismo pode funcionar como uma espécie de “transporte”, ao se ligar às partículas no intestino e facilitar a eliminação.Como a bactéria ageO mecanismo observado é conhecido como biossorção. Na prática, as partículas de plástico aderem à superfície da bactéria, sem serem absorvidas ou degradadas por ela.“A superfície da bactéria funciona como uma estrutura capaz de reter essas partículas por interações físicas”, diz a nutricionista Manuela Dolinsky, presidente do Conselho Federal de Nutrição (CFN).Segundo ela, componentes da parede celular, como proteínas, gorduras e polissacarídeos, favorecem essa ligação. “As imagens mostram que os nanoplásticos ficam presos na parte externa da bactéria e não entram nas células”, explica.A hipótese é que, ao passar pelo intestino, as bactérias se liguem às partículas presentes no conteúdo intestinal e sigam até a eliminação pelas fezes. Foi esse efeito que os pesquisadores observaram nos animais.Kimchi, alimento tradicional da CoreiaResultados ainda iniciaisApesar dos achados, especialistas ressaltam que os dados ainda são preliminares e não permitem concluir que consumir kimchi tenha o mesmo efeito em pessoas.Manuela diz que o estudo não avaliou o consumo do alimento nem foi realizado em humanos. Além disso, a pesquisa analisou apenas um tipo de nanoplástico, destaca.A imunologista Ana Caetano Faria, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), reforça que os resultados vêm de modelos experimentais. “Essas condições não refletem a complexidade do intestino humano, que tem uma microbiota muito diversa”, afirma.Segundo ela, ainda não se sabe se o mesmo mecanismo ocorreria no organismo humano ou se teria impacto em outras partes do corpo onde partículas podem se acumular. “O que os estudos mostram é um efeito potencial na absorção dessas partículas, que ainda precisa ser confirmado em ensaios clínicos”, diz.O que já se sabe sobre o kimchiO kimchi é feito a partir de vegetais fermentados, como acelga e rabanete, combinados com temperos como alho, gengibre e pimenta. O processo de fermentação favorece a presença de bactérias do ácido lático, associadas a benefícios para a microbiota intestinal.Outro estudo recente, com dados populacionais da Coreia do Sul, aponta que o consumo de alimentos fermentados está associado a menor inflamação sistêmica. Ainda assim, essa relação não estabelece causa direta.









