✈️ Sete décadas debaixo d'água e as marcas de fábrica ainda estavam lá
Um hidroavião nazista naufragou num fiorde norueguês em 1942. Setenta anos depois, um sonar de rotina trouxe à tona a única unidade que restou no planeta. ⬇️
Poucas histórias reúnem tanta sorte e tanta teimosia quanto a deste avião de guerra. O Heinkel He 115, identificado pelas letras 8L+FH, passou quase setenta anos no fundo do Hafrsfjord, no sudoeste da Noruega, até um sonar de rotina revelar sua localização exata. Um grupo de voluntários noruegueses assumiu então a missão de devolver vida a essa aeronave rara, hoje o único exemplar conhecido em todo o mundo.
Como um hidroavião alemão foi parar no fundo do mar?
Um pouso forçado em pleno mau tempo derrubou o hidroavião no Hafrsfjord, no fim de dezembro de 1942. O aparelho tentava amerizar durante uma missão de escolta a um comboio alemão na costa de Stavanger.
O impacto contra a água rompeu um dos flutuadores e o avião virou na hora. A tripulação, formada por três homens, escapou ilesa, mas o hidroavião afundou sem chance de resgate imediato.
Antes do acidente, esse modelo já havia acumulado uma folha de serviço e tanto. Suas funções cobriam praticamente todas as frentes da guerra naval.
- Reconhecimento aéreo sobre águas inimigas
- Minagem de rotas marítimas estratégicas
- Escolta de comboios alemães
- Caça a submarinos aliados
- Bombardeio com torpedo
Com 17,3 metros de comprimento, o Heinkel He 115 superava bombardeiros como o He 111 e o Do 17 em tamanho. O exemplar integrava a 1.ª Esquadrilha do Küstenfliegergruppe 906, unidade da Luftwaffe baseada em Stavanger-Sola.
Sonar encontra hidroavião nazista de 1942 que passou décadas escondido na Noruega - Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)
Por que o Heinkel He 115 ficou 70 anos escondido?
O acidente aconteceu em dezembro de 1942 e, por décadas, ninguém soube exatamente onde a aeronave havia parado. Só em agosto de 2005 a autoridade cartográfica norueguesa testou um novo equipamento de sonar na região do Hafrsfjord, área já conhecida por abrigar destroços da guerra.
A primeira varredura não encontrou nada no setor previsto. Uma análise posterior, porém, revelou uma anomalia enorme em outro ponto do fiorde, o que levou uma equipe de mergulhadores a investigar o local em setembro daquele ano.
As fotos feitas debaixo d'água mostraram as marcas "8L+FH" no casco, o detalhe que permitiu cruzar os registros militares e confirmar a identidade do avião. O ambiente com pouco oxigênio e correntes fracas funcionou como uma cápsula do tempo natural. Somente em 2012, com autorização das Forças Armadas norueguesas, a aeronave foi finalmente retirada do fundo do mar.
Como restaurar um avião sem plantas originais?
Depois do resgate, o hidroavião passou anos submerso em água doce para remover o sal acumulado na estrutura de alumínio, uma etapa essencial antes de qualquer reparo. A partir de 2024, a equipe concentrou o trabalho no nariz, na cabine e na seção central da fuselagem.
A falta de documentação técnica tornou o processo ainda mais desafiador. Veja como os restauradores contornaram esse obstáculo em três frentes principais:
🛠️ A restauração em três etapas
✏️ Sem plantas originais: os restauradores trabalharam apenas com esboços simples e fotos de época para reconstruir a cabine.
⚡ Eletrólise contra a corrosão: asa central, ancoragens e flutuador passaram por um banho elétrico que limpa o metal sem agredi-lo.
🔩 Peças substituídas: componentes que não resistiram ao tempo debaixo d'água foram trocados por chapas e rebites novos.
Fonte: Fjord Norway, autoridade oficial de turismo da região
Sem desenhos técnicos completos, a equipe precisou improvisar boa parte da reconstrução. O coordenador do projeto explicou que não existem plantas originais do He 115 disponíveis para consulta. Ainda assim, os voluntários já recriaram à mão uma cobertura de cabine de cinco metros, unindo madeira laminada a perfis de alumínio que imitam o desenho original.
O que torna esse Heinkel He 115 tão raro?
Nenhum outro exemplar do modelo sobreviveu em qualquer lugar do planeta, o que torna esse avião uma peça única na história da aviação militar. Alguns fatores explicam essa raridade.
- Foi amplamente usado durante a Segunda Guerra Mundial e a maioria dos exemplares foi destruída em combate
- O ambiente do Hafrsfjord preservou o metal por quase sete décadas
- É o único Heinkel He 115 restaurado e exposto ao público no mundo
Vale a pena conhecer essa história de perto?
O destino final da aeronave foi o Museu de História da Aviação de Sola, perto do aeroporto de Stavanger. O prédio é, com boa dose de simbolismo, um hangar autêntico construído pelos próprios alemães durante a Segunda Guerra Mundial, o mesmo tipo de instalação de onde o 8L+FH decolou pela última vez em 1942. Lá, o hidroavião divide espaço com um Messerschmitt Bf 109 e peças de outras aeronaves da guerra, no acervo do museu de Sola.
Histórias assim mostram como um acidente isolado pode virar um capítulo raro da memória mundial. Se você gosta de aviação e de guerra, vale planejar uma visita a essa relíquia norueguesa.


