🐄

Uma ilha esquecida, cinco vacas e um mistério genético de 130 anos

Um fazendeiro deixa cinco vacas para trás numa ilha varrida por ventos de força de furacão. Um século depois, o DNA delas revela algo que ninguém esperava. ⬇️

Em 1871, um fazendeiro chamado Heurtin abandona cinco vacas na Ilha Amsterdã, um pedaço de terra perdido no meio do oceano Índico sul. Sem cercas e sem ajuda humana, aqueles cinco animais dão origem a um rebanho selvagem. Ele resiste sozinho por mais de um século na ilha isolada. Décadas depois de o último bovino ser removido da ilha, cientistas sequenciam o DNA preservado do grupo. O resultado muda a história que se contava sobre a sobrevivência dele.

Como cinco vacas abandonadas formaram um rebanho selvagem?

O fazendeiro Heurtin leva os cinco bovinos da Ilha Reunião até a Ilha Amsterdã. O território francês fica isolado no oceano Índico, a quase 4.400 quilômetros de Madagascar, com apenas 55 quilômetros quadrados de extensão. O clima local castiga qualquer espécie recém-chegada: ventos de força de furacão, frio constante e escassez de água doce marcam o cotidiano do lugar. Mesmo assim, o pequeno grupo se multiplica ao longo das décadas seguintes e chega a cerca de 2.000 cabeças em 1952. Uma epidemia reduz drasticamente a população, mas o rebanho volta a atingir um número parecido em 1988.

DNA revela segredo de vacas isoladas no oceano há séculos - Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)

O que o DNA revelou sobre a origem do gado?

Para reconstruir essa história, o geneticista Mathieu Gautier lidera uma equipe do instituto francês INRAE. Em parceria com a Universidade de Liège, eles analisam material genético guardado desde os anos 1990. O resultado mostrou uma composição inesperada:

- Quase três quartos da ancestralidade vêm de raças taurinas europeias, próximas ao gado jersey atual

- O quarto restante corresponde ao zebu, o gado indiano ligado aos rebanhos de Madagascar e da Ilha Maiote

Essa mistura genética já existia antes mesmo de as vacas deixarem a Ilha Reunião, segundo o estudo. Ela explica por que um grupo fundador tão pequeno conseguiu manter diversidade genética suficiente para sobreviver ao isolamento extremo da Ilha Amsterdã. O estudo completo, liderado por Gautier, aparece na Molecular Biology and Evolution e detalha cada etapa dessa reconstrução genética.

Como o rebanho cresceu durante o isolamento extremo?

O crescimento do grupo não seguiu uma linha reta. Ele passou por ciclos de expansão, queda e recuperação ao longo de mais de um século de isolamento.

A linha do tempo do rebanho selvagem

🐮 1871: cinco vacas fundadoras chegam à ilha e começam a se reproduzir sem intervenção humana.

📈 1952: o rebanho selvagem atinge cerca de 2.000 animais, mostrando recuperação rápida após o gargalo genético inicial.

🧬 1992 a 2006: pesquisadores coletam amostras genéticas usadas décadas depois no estudo publicado.

Fonte: estudo de Mathieu Gautier e equipe, publicado na Molecular Biology and Evolution (2024)

Por que a teoria do nanismo insular perdeu força?

Um estudo publicado em 2017 na revista Scientific Reports defendia outra versão da história. Segundo esse trabalho, o gado da Ilha Amsterdã havia encolhido rapidamente, perdendo cerca de um quarto do tamanho corporal original em cerca de um século. Esse trabalho, assinado por Roberto Rozzi e Mark Lomolino, tratava o rebanho como um exemplo raro de nanismo insular. Esse fenômeno ocorre quando mamíferos grandes desenvolvem corpos menores em ilhas isoladas.

A nova análise genética não encontrou nenhum sinal claro de seleção voltada para reduzir o tamanho dos animais. O sucesso do rebanho na ilha vem principalmente da pré-adaptação herdada da ancestralidade taurina europeia, já acostumada a climas frios e úmidos.

Por que o rebanho precisou ser eliminado da ilha?

A dúvida sobre manter ou remover as vacas surge quando o impacto delas no ecossistema local fica evidente. Duas espécies ficam especialmente ameaçadas pela presença do gado:

- O albatroz-de-amsterdã, ave que nidifica exclusivamente na ilha e enfrenta risco de extinção

- A árvore nativa Phylica arborea, essencial para a vegetação original do território

A ameaça ao albatroz-de-amsterdã, ave que não existe em nenhum outro lugar do planeta, pesa diretamente na decisão dos pesquisadores. Uma cerca é instalada em 1987 e mais de mil cabeças de gado são retiradas da parte sul da ilha nos dois anos seguintes. Os últimos animais são eliminados em 2010, dentro de um programa mais amplo de restauração ecológica que incluiu o replantio de vegetação nativa. Em 2019, a Unesco inclui as Terras Austrais e Antárticas Francesas, que abrangem a Ilha Amsterdã, na lista de patrimônio mundial.

O que essa história ensina sobre isolamento e sobrevivência?

A trajetória do gado selvagem de Amsterdã mostra como um grupo pequeno pode guardar uma diversidade genética maior do que o número de fundadores sugere. Ela também lembra que decisões de conservação, mesmo difíceis, moldam o destino de espécies inteiras, tanto animais quanto vegetais. Se esse tipo de descoberta genética desperta sua curiosidade, vale acompanhar de perto os próximos estudos sobre populações isoladas.