Durante décadas, a indústria da moda aperfeiçoou uma espécie de truque de ilusionismo econômico. A roupa chega barata à vitrine, cabe no orçamento, acompanha a tendência da semana e parece não deixar dívidas. Spoiler alert: ela deixa. Só que a conta não vem no caixa da loja. Ela aparece mais tarde – na atmosfera, nos rios, nos aterros sanitários e, com frequência, no território de comunidades que jamais participaram da festa do consumo.O estado da Califórnia, nos Estados Unidos, decidiu começar a revelar esse preço escondido. Uma reportagem de Rachel Cernansky, publicada pelo The New York Times, mostra como uma lei aprovada em 2024 pode alterar a lógica do setor. A Lei de Recuperação Têxtil Responsável transfere para fabricantes, importadores e varejistas parte do custo de recolher, separar, consertar, reutilizar e reciclar roupas e outros produtos têxteis depois que deixam as mãos do consumidor.É uma mudança pequena na aparência e enorme no princípio: quem coloca um produto no mercado também deve responder pelo que acontece quando ele vira resíduo.Hoje, essa conta costuma ser paga pelo consumidor e pelo poder público (ou simplesmente empurrada para outro lugar). Segundo o jornal americano, moradores da Califórnia descartaram quase 1,2 milhão de toneladas de têxteis somente em 2021. O novo sistema deverá oferecer pontos de entrega, programas de devolução pelo correio e participação de brechós. As empresas financiarão a estrutura e as regras deverão favorecer peças duráveis, reparáveis e feitas com material reciclado, enquanto produtos difíceis de reciclar, como tecidos de fibras misturadas, poderão pagar mais.Não se trata apenas de organizar melhor o lixo. A ideia é interferir no projeto da roupa antes mesmo de ela existir.É que quando uma empresa sabe que terá de pagar pelo fim da vida de uma peça, ganha um motivo econômico para fazê-la durar mais. Esse mecanismo tem nome burocrático: responsabilidade estendida do produtor. Uma ideia bastante simples: o lucro não pode ser privatizado enquanto o prejuízo ambiental é socializado.Para compreender a dimensão do problema, basta descer pelo mapa do continente até o norte do Chile. O deserto do Atacama se tornou uma das imagens mais brutais da moda descartável. Ali, pilhas gigantescas de vestidos, casacos, calças, camisetas e sapatos formam montanhas coloridas sobre uma das paisagens mais áridas do planeta.Não são herança de uma civilização antiga. São ruínas do consumo da semana passada.O Ministério do Meio Ambiente do Chile informa que, em 2021, o país importou 156 mil toneladas de roupas usadas ou sem uso e que cerca de 60% desse volume terminou em depósitos ilegais e no Atacama. Um diagnóstico oficial estima que aproximadamente 40 mil toneladas de roupas chegam ao deserto a cada ano. Parte desembarca pela zona franca de Iquique para revenda; o que não encontra comprador perde valor comercial, mas não desaparece. Permanece no solo, libera substâncias, espalha microfibras plásticas e, quando queimado clandestinamente, transforma o descarte também em poluição do ar.O Atacama expõe a geografia desigual do desperdício. Países e consumidores mais ricos renovam o guarda-roupa; territórios mais pobres recebem o excesso. Exportar roupa usada pode parecer reaproveitamento, mas, quando o volume supera a procura e a capacidade local de gestão, é apenas exportação de lixo com outro nome.Os números globais ajudam a medir o tamanho dessa montanha. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente estima que o mundo gere 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis por ano – o equivalente a um caminhão de lixo cheio de roupas enviado a um aterro ou à incineração a cada segundo. Entre 2000 e 2015, a produção de roupas dobrou, enquanto o tempo de uso das peças caiu 36%.A moda e os têxteis respondem por algo entre 2% e 8% das emissões globais de gases de efeito estufa, segundo a ONU. A amplitude da estimativa revela a dificuldade de medir uma cadeia longa, pulverizada e opaca, que começa no cultivo do algodão ou na extração do petróleo usado no poliéster, passa por fiação, tingimento, acabamento, transporte e varejo e termina no descarte. O setor também consome cerca de 215 trilhões de litros de água por ano e responde por uma parcela relevante da poluição por microplásticos que chega aos oceanos.Ainda assim, é tentador tratar o problema como uma soma de escolhas individuais: comprar menos, usar por mais tempo, frequentar brechós, reparar uma peça rasgada. Tudo isso importa. Mas a escala da crise mostra o limite de entregar ao consumidor a tarefa de corrigir sozinho um sistema desenhado para produzir depressa, vender muito e substituir antes que seja necessário.Não há consumo consciente capaz de compensar indefinidamente uma produção inconsequente. A economia circular não começa na lixeira. Ela acontece na prancheta de quem desenha, na planilha de quem define os materiais, na estratégia de quem estimula desejos e na responsabilidade de quem lucra com cada nova coleção.Durante muito tempo, chamamos de barata uma roupa cujo custo real era pago por alguém distante e por um planeta sem direito a apresentar a fatura. As montanhas do Atacama mostram que essa conta existe. A Califórnia tenta agora endereçá-la a quem também deve pagá-la.Se der certo, a maior inovação não será reciclar melhor aquilo que descartamos. Será finalmente deixar de desenhar o mundo, e o guarda-roupa, como se tudo fosse descartável.

Blog do Noblat - 22 anos
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A roupa barata que sai caro para o planeta (por Mariana Caminha)
A roupa barata que sai caro para o planeta (por Mariana Caminha) · Imagem: Source: www.metropoles.com
descarte lixo roupas fast fashion moda - metrópoles
descarte lixo roupas fast fashion moda - metrópoles · Imagem: Peter Cade/Getty Images
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Foto de Blog do Noblat
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